SÃO LUIS PRINCIPE HERDEIRO DE NAPOLES E BISPO DE TOLOSA

 

 

FERNANDO LARCHER

SÃO LUÍS, PRÍNCIPE HERDEIRO DE NÁPOLES, FRADE MENOR, BISPO DE TOLOSA

E ORAGO DA IGREJA E CONVENTO DAS CLARISSAS DE PINHEL

 

 

 

1. A partir de meados da década de trinta do séc.XVI, há um surto de mosteiros femininos nas dioceses de Lamego e de Viseu, nas quais se integrava a Beira Côa.

Quando por bula de Clemente XIV, de 25 de Agosto de 1770, é fundada a diocese de Pinhel, já os conventos franciscanos femininos na região estavam reduzidos a dois: São Luís de Pinhel e Santa Clara de Trancoso. Nª Sra.do Souto da Nave e Nª Sra.do Souto de Almeida tinham sido encerrados respectivamente em 1746 e 1767, este por o governador da praça, Francisco Mac-Lean, ter solicitado as instalações para quartel e hospital.

 

O mais antigo desse surto conventual fora o de Santa Clara de Trancoso fundado em tempos de D.João III, em 1537, pelo fidalgo dr.Cristóvão Mendes de Carvalho e por sua mulher, D.Brites Correia.

Quase sessenta anos depois, em 1596, o secretário de Estado Luís de Figueiredo Falcão  aproveitando a vinda a Lisboa do Ministro Geral dos menores observantes, Fr.Boaventura de Calatagyrona (1593-1600) para presidir à Congregação da Província, comunica-lhe a intenção de fundar em Pinhel, sua terra natal, um mosteiro de clarissas. Encontrando assentimento envia uma suplica ao papa, então Clemente VIII (1592 –1605), a que este responde pela bula Volumus, & statuimus, aprovando o mosteiro, ainda que dando-lhe solução diferente da pretendida quanto à obediência: não dependeria da província, mas sim do bispo de Viseu. A chegada das três primeiras freiras, vindas do Mosteiro de Santa Clara da Guarda, que remontava à primeira metade do séc.XIV, dá-se a 27 de Outubro de 1602: a abadessa vitalícia e irmã do fundador, Madre Guiomar dos Reis, Soror Antónia da Anunciação e Soror Luísa do Espírito Santo, esta com o título de mestra pois era capaz de ensinar o latim ficando também com o encargo da casa.

Não nos ocuparemos aqui das vicissitudes do Mosteiro, a que o celebérrimo decreto de 28 de Maio de 1834 ditaria sentença de morte, mas do patrono que o seu fundador estabelecera: São Luís de Tolosa.

Foi ele que aqui nos trouxe. Quem é, pois, este São Luís, por vezes confundido com seu tio avô, São Luís IX, rei de França?

 

2. São Luís de Anjou, porque membro da casa dos duques de Anjou, esteio da casa real de Nápoles, São Luis de Tolosa, porque bispo desta importante diocese, ou São Luís de Marselha, porque sepultado no convento franciscano desta cidade, este o São Luís que ainda hoje se venera na actual Igreja paroquial, antiga igreja conventual, que foi, durante várias décadas do séc.XIX, Sé episcopal de Pinhel.

Nascido em 9 de Fevereiro de 1274, em Brignoles, perto de Marselha, ou segundo outros, e com mais verosimibilidade, em Itália, em Mucera de los Paganos, era  filho do rei de Nápoles, Carlos II, cognominado o Coxo, e de sua mulher Maria, filha do rei Estevão V da Hungria (1270-1272) e pretendente à coroa desse reino. Ainda que nascido secundogénito, Luís tornar-se-ia príncipe herdeiro por morte de seu irmão primogénito em Agosto de 1295.

 

Qualquer que tenha sido o seu local de nascimento, a sua vida decorreu nesse quase semicírculo que configuram as costas do Mediterrânio de Nápoles a Aragão.

 

 

3. A sua primeira infância esvai-se cedo. Aos 14 anos vê-se, nos termos do tratado de Oloron, de fins de Julho de 1287, enviado com dois dos seus irmãos, Roberto e Raimundo, para as terras de Aragão na qualidade de refém, para que fosse libertado seu pai desairosamente aprisionado em Junho de 1294 pelo rei Pedro de Aragão, no contexto dos conflitos pela coroa da Sicília, reacendidos com as sangrentas Vésperas Sicilianas.

 

O primeiro ponto de destino é o castelo de Moncada, onde permanecem um ano. Em 23 de  Março de 1289, sabemo-lo nesse local, pois é daí que Raynaud Porcellet informa Carlos II das disposições tomadas  a seu pedido em favor dos seus três filhos detidos.

 

Não assistirá pois à coroação do pai em 29 de Maio desse ano, na catedral de Rieti, por Nicolau IV, o Papa que no ano seguinte assinará a bula que aprova o Estudo Geral criado por D.Dinis.

Estamos em 1290, data para nós celebrável por o erudito rei de Portugal decretar língua oficial o português.

No ano seguinte terão chegado, por certo, notícias de importantes acontecimentos, em que a sua família de Luís está envolvida, ocorridos no final da primavera:

– a queda do Reino latino de Jerusalém, de que o pai de Luís é titular, ao sucumbir às mãos dos mamelucos São João de Acre em 18 de Maio 1291. Não mais restava do que Arouad, que permanecerá nas mãos cristãs até 1302.

– a morte, em 18 de Junho, do irmão mais velho da  rainha Santa Isabel de Portugal, o rei Afonso III de Aragão, de quem Luis é refém. Sem descendência, Afonso deixa os reinos de Aragão, Valência e Maiorca e os condados catalães ao seu irmão Jaime, rei da Sicília, mas sob a condição de que este cedesse este reino ao irmão de ambos Fradrique;

– o assassinato em 10 de Julho,  129   ?,  do tio de Luís, o rei Ladislau IV da Hungria, pelos seus barões, com uma consequente abertura de um período de anarquia. Em 4, ou 20?, de Agosto os nobres húngaros proclamam rei André III. Em 8 de Setembro, o irmão primogénito de Luís, Carlos Martel é coroado, em Nápoles, rei da Hungrria pelos legados do Papa Nicolau IV. 

 

 

 

Em domínios aragoneses permanecerá sete anos.

 

Aí teve contacto próximo com os franciscanos escolhidos para a educação sua e de seus irmãos. Com eles se robusteceu a sua vocação. Tê-lo-á atraído desde cedo a tendência dos franciscanos “espirituais”, a que aliás a sua família foi atreita. No cativeiro se moldou a austeridade do seu caracter, por vezes quase desconcertante.

 

Assim retratará o seu temperamento Fr.Marcos de Lisboa:

 

“E sendo muy manso per misericordia aos bõs & fracos, & humilde, & de muy grata conversação a todos, era com isso muy grande repr~ededor dos vícios, & aspero & riguroso por a justiça aos soberbos que desprezauão o mandamento celeste.”

 

Na sequência duma doença faz votos de tomar o hábito minorita. Não os esqueceria. Reconciliadas as famílias reais de Aragão e Nápoles em 1291, trata-se o casamento do rei Jaime com sua irmã Branca, e pretende-se tratar do seu casamento com a irmã do rei de Aragão, irmã igualmente, recorde-se da rainha Santa Isabel de Portugal. Mas Luís resiste.

 

 

Ainda se encontrava no cativeiro, quando em Julho de 1294 é eleito papa Celestino V. A eleição resulta do próprio, então Pedro del Morone, ter escrito uma carta ao decano do arrastadíssimo conclave que estava reunido em Perugia, Latino Orsini Malabranca, na qual previa sérios castigos para os cardeais se não elegessem rápidamente um papa. Sob sugestão do decano o conclave elege-o por unanimidade A ideia da carta terá sido inspirada por Carlos II…

O pai e o irmão Carlos Martel, de Luís, que tinham pressionado uma deliberação do arrastado conclave, que se sucedera à morte de Nicolau IV em 4 de Abril de 1292, havia mais de dois anos, pegam-lhe nas rédeas na sua entrada solene.

 

Informado da sua eleição, o novo pontífice não se desloca a Perugia, e faz-se coroar na Igreja de Santa Maria de Collemaggio, em Aquila, território napolitano, em 29 de Agosto. Nunca tendo entrado nos Estados Pontifícios, caso único na história. Sob o conselho de Carlos II transfere a curia de Aquila para Nápoles. Eentrega-se nas mãos de Carlos II, até renunciar em Nápoles, no Castelo Novo, em Dezembro ponde termo voluntariamente ao seu curto pontificado, e abrindo o único verdadeiro precedente a Bento XVI.

 

Para os cargos pontifícios são nomeados protegidos de Carlos II. Datarão de então os primeiros rumos eclesiásticos, ainda que não concretizados, de Luís.

 

É bem natural que Carlos II tomando este filho secundogénito, agora com 20 anos, como destinado à vida religiosa, para a qual mostra inclinação, tenha agido junto do papa Celestino V, para encetar o seu encaminhamento nesse sentido.

Uma oportunidade parecia abrir-se com a vacância da arquidiocese de Lyon, pelo promoção a cardeal no consistório de 18 de Setembro do arcebispo Berard de Got, irmão do futuro e controverso papa Clemente V, cuja responsabilidade na extinção dos templários a história teima em não esquecer.

 

Menos de três semanas depois, em 7 de Outubro, Celestino V nomeia Luís, ainda em cativeiro, administrador da arquidiocese de Lyon (não arcebispo). A renúncia papal, e a sucessão de Bonifácio VIII, desvanece tal nomeação.

 

 

4. Libertado em 1295, Luís inicia os seus dois últimos anos de vida, centrados na sua vocação religiosa. Logo ao passar por Montpellier pretende ficar no convento dos frades menores, mas estes temendo o desagrado de seu pai não o aceitam. Obstáculo de percurso. Mal chegado a Itália renuncia os seus direitos em seu irmão Roberto. A questão encontra-se encerrada em Fevereiro de 1296. Por morte de Carlos II, este viria a ser de 1309 a 1343 Roberto I rei de Nápoles e conde da Provença, cognominado o Sábio, rei culto, como o foram por estes tempos nas Hespanhas Afonso o Sábio e seu neto, o nosso Diniz. Liberto das obrigações sucessórias, Luís pode agora receber as ordens sagradas das mãos do arcebispo de Nápoles, na basílica franciscana de São Lourenço Maior. Passo escasso para um príncipe real. Bonifácio VIII concede-lhe em Dezembro de 1296 o bispado sedes vacante de Tolosa, por morte do seu titular. Luís acorre a Roma, mas pretende antes de mais ingressar na Ordem franciscana. Professa efectivamente no convento de Aracoeli, nas mãos do ministro geral Fr.Juan de Muni na noite de Natal. Consagra-o, na basílica constantiniana de São Pedro, no Domingo seguinte, que cai no dia 30, o papa na mitra de Tolosa.

Inicialmente, para evitar as reacções da sua família aceita cobrir o hábito franciscano com os trajes episcopais, mas no dia de Santa Águeda surpreende ao pregar no Vaticano descalço e com o hábito da sua ordem.

 

 

Mas a obrigação chama-o.

Sem excessivas delongas, depois de uma breve e última passagem por Nápoles, dirige-se à sua diocese, dando testemunho de humildade nos conventos onde pernoita, e fazendo um desvio a Paris onde encontra o primo direito de seu pai o rei Filipe IV, o Belo.

Em princípios de Maio de 1297 é recebido em Toulouse com o júbilo e veneração devidos ao seu múnus e à sua linhagem. Não terão deixado de sensibilizar a sua juventude e a sua chegada com um simples hábito franciscano, testemunho da sua radical opção. Estava-lhe na natureza o desprezo do fausto. Governa com grande desvelo. Rigoroso nas suas despesas, conta-se que consagrava os rendimentos da sua diocese aos pobres, dos quais convidava 25 à sua mesa todos os dias servindo-os ele mesmo. Deixa a marca forte de quem encontrara no amor à pobreza o modelo da São Francisco e de Cristo pobre. Reconhece-se, por certo, na sensibilidade das posições dos “espirituais”. Acção intensa e meteórica foi o seu episcopado. Pouco passara de um mês sobre a sua chegada, parte para Aragão com a missão de conciliar seu cunhado o rei de Aragão com o conde de Foix Roger Bernardo III. Por certo conhece então o seu recém nascido sobrinho Jaime, que como ele renunciará a um trono para professar. Consagra a igreja franciscana de Barcelona, como o ficou a atestar uma inscrição epigráfica.

Dirige-se agora a Roma para assistir à canonização do seu tio avô, Luís IX de França, e, admite-se, para pedir ao papa a renúncia da sua mitra. Em Terragona recebe um pedido de seu pai para com ele se ir encontrar em Brignoles. Aí chega já de saúde depauperada,  adoecendo com tal gravidade que a 19 de Agosto faz o seu testamento, no qual destinava sepultura aos  seus despojos mortais, e entre outros dos seus bens dispõe dos seus livros, biblioteca assinalável a que não faltava a relativamente recente Suma Teológica de Tomás de Aquino, em favor de alguns dos seus companheiros e amigos. Não ultrapassaria o meio dessa mesma noite. Contava 23 anos.

 

 

5. Conforme os hábitos da época, que a Igreja não tardará a interditar pela bula papal De Sepulturis de 1300, e em cumprimento do seu desejo são os seus ossos transportados para Marselha para serem sepultados no meio do coro do convento dos Frades Menores, enquanto as suas carnes e entranhas ficam em Brignoles, no claustro do Convento franciscano.

A igreja do convento de Marselha, construído pelos anos de 1220-1230, fora-se tornando local de intensa vida religiosa, a ponto de vir a ombrear com a prestigiada abadia de São Victor. Se os inúmeros milagres ocorridos junto às sepulturas de dois irmãos, que pertenciam à corrente espiritual franciscana, Hugo de Digne ou de Barjols e Santa Douceline, há anos animavam o fervor local, bem cresceria o prestígio conventual, agora reforçado pelo odor de santidade de Luís, de quem prosseguem os milagres que já em vida lhe eram atribuídos, e pela protecção da família do príncipe-santo.

Não evocaremos aqui o rol dos milagres de S.Luis, mas quem quiser pode encontrá-los, dentre a vastíssima bibliografia sobre o santo, na Segunda parte das Crónicas da Ordem dos Frades Menores, dada à estampa em Lisboa, em 1562, por Fr.Marcos de Lisboa, que foi bispo do Porto, e que entre outros méritos tem o de ter sido o primeiro autor a relatar o milagre das rosas da concunhada de São Luís, a nossa rainha Santa Isabel.

 

 

 

6. Mercê da fama da sua santidade, asceticismo, espiritualidade, humildade e caridade, e das empenhadas diligências da sua família real, encabeçada por seu pai e depois por seu irmão, bem mais, aliás, do que pelas da sua ordem franciscana, viria a ser canonizado, como Santo confessor, ou seja em linguagem simples santo não mártir, por João XXII, que quando era ainda Jacques Duèze o acompanhara e que por nomeação de seu pai fora chanceler da Provença. A bula é publicada em Avinhão, em 7 de Abril de 1317, na presença de seu irmão Roberto I rei de Nápoles. Teria 43 anos se fosse vivo.

 

Não tardou em espalhar-se o seu culto, naturalmente projectado por duas forças institucionais: os seus régios parentes e a Ordem franciscana. Recorde-se que esta, em 1316, conta com nada menos de 34 províncias, 197 custódias, 1407 conventos e cerca de 45.000 \religiosos.

 

A humildade, de cariz franciscana, que procurara em vida, foi celebrada com a magnificência devida a um príncipe, depois da morte.

A sua linhagem celebrou-se a si própria celebrando-o, fazendo da sua renúncia instrumento de sublimação.

 

O sermonário apologético, a sumptuosidade dos relicários, a pujante iconografia celebram esse príncipe sublimado pelos votos franciscanos, rebento, desaparecido na flor da idade, de cepa régia (capetíngia) enxertada de santos.

 

Não tinham passado três meses sobre a sua canonização sem que seu irmão Roberto I, que na ocasião compôs o ofício Tecum, chamasse a Nápoles, logo em Junho de 1317, Simone Martini, a quem nomeia cavaleiro concedendo-lhe uma pensão anual e encarregando-o de pintar uma tábua celebrativa. Mais do que uma consagração iconológica da canonização é uma verdadeira apologia da casa Anjou, esse São Luís de Tolosa coroando seu irmão Roberto de Anjou, que se conserva no Museo di Capodimonte em Nápoles. Obra prima em que figurara o mais antigo retrato individualizado da pintura italiana: o do próprio Roberto I.

 

Em 1319 é com sumptuosidade que Roberto promove e assiste à elevação das relíquias de São Luís transferidas por quatro cardeais para trás do altar-mor do igreja franciscana em que fora sepultado.

A imagem aureolada do franciscano de ar jovem com trajes episcopais, sob os quais se vê por vezes o seu hábito de minorita escondido, ilustra frescos, tábuas, telas, pergaminho, papel  ou vitrais e esculpe-se na pedra. Com ou sem as restantes insígnias episcopais: mitra, báculo e luvas, segurando ou não um livro; eventualmente com capa pluvial azul, a que não raro faltam as flores de lis e o alamar heráldico que arvora as armas da Casa de Anjou e das suas ligações; frequentemente com a evocação da coroa a que renunciou – aos pés, na mão esquerda, ou mesmo, como no quadro de Simone Martini, sobre a sua cabeça segura por dois anjos -; algumas vezes com uma flor como atributo; imberbe ou até mesmo com barba como na Igreja do seu orago em Pinhel. Descalço, com sandálias, ou sem os pés visíveis, a sua representação isolada ou acompanhando Nossa Senhora, santos familiares ou franciscanos, peregrinou, não poucas vezes, de igrejas, capelas e conventos para museus.

Artistas como Donatello, Ugolino di Nerio, Luís Brea, Giotto, Bartolomeo Vivarini, Piero della Francesca, Le Pérugin, Bellino Giovani, Pordenone, Cavaro Pietro, Tintoretto, Bonifacio Veneciano, della Robbia, Le Gros e Nocret, deram-lhe vida com os seus pincéis e cinzéis.

Quisera Luís ter sido rei e não encontraria a sua memória tal plêiade de artistas.

 

 

Ao seu túmulo irão reis, príncipes e nobres, cardeais, bispos e simples frades, burgueses e simples povo. As suas relíquias serão cobiçadas e os seus ossos peregrinarão. Afonso V de Aragão, o Magnânimo, quinto neto de Branca de Anjou, irmã do santo, saqueando Marselha, levará em 1423 o que deles não tinha sido retirado, do esconderijo em que os tinham querido salvaguardar. Depois de peregrinarem com o rei aragonês são depositados na catedral de Valência, onde permanecem. Do convento franciscano marselhês nada resta, arrasado que foi em 1524 por imperativo de resistência ao cerco das tropas de Carlos V, comandadas pelo condestável de Bourbon. Por isso quando, em 1956, por compromisso entre os arcebispos de Valência e Marselha, são devolvidas duas das vértebras a esta cidade, são depositadas na igreja dos agostinhos. Mas, pasme-se, ainda aqui não acabaria a preregrinação das relíquias. Em 1993 são roubadas, continuando-se sem saber do seu paradeiro.

O culto de S.Luís, vivo em tantas das terras que calcorreou e de que é padroeiro como Brignoles, Nápoles, Toulouse, Marselha, Tarragona ou Valência, espalhar-se-á além zona mediterrânica, por outras terras
de línguas várias …, sem que o mar fosse entrave, ou que a Califórnia ou as Filipinas fossem demasiado longínquas.

 

 

 

7. Por não pisar São Luís terras de Portugal, não deixou a brisa da sua fama de nelas soprar.

Contra cunhado da rainha Santa Isabel de Portugal, cuja devoção por ele foi referenciada, notabiliza-o entre nós o ter a sua intercessão salvo o rei D.Dinis de morrer às mãos de um urso, milagre do qual surgiram várias evocações: em S.Pedro de Pomares, em São Francisco de Beja, na Igreja do Convento de Santa Clara em Coimbra. Quiçá a figura hoje desaparecida da tampa sepulcral de D.Dinis não representasse outro que o santo bispo mitrado de Tolosa. Bem houve quem quis ver neste milagre a causa da fundação dionisiana do mosteiro de S.Dinis de Odivelas, do que foi eco mor Fr.António Brandão na sua Parte V da Monarquia Lusitana. Penso já oportunamente termos provado não poder ter fundamento tal asserção, o que não impede que  no seu terceiro e último testamento, já de 1324, mande aos testamenteiros, que façam uma capela a S.Luís bispo de Tolosa naquele e que aí ponham dois capelães que cantem nesta Capela para sempre à honra desse santo por alma do rei.

Não fazia, aliás, mais do que estar em consonância com os reis coevos seus parentes, na evocação de um príncipe aparentado ou contra-aparentado com múltiplas casas reais  – Nápoles, Hungria, França, Aragão, Navarra, Portugal,… – que atingira as auras da santidade.

 

Não faltaram em Portugal invocações suas, que o Atlântico não impediu que chegassem ao Brasil. Ainda presentemente (2013) se acaba a reconstrução da Igreja de São Luís de Piratinga, na cidade do mesmo nome e patrono, que uma inundação derrubou, conjuntamente com cerca de outros 300 edifícios, em Setembro de 2011.

Por terras brasileiras foi padroeiro do Seminário seráfico do rio Negro, e do convento e igreja de seu nome em Itu no actual Estado de São Paulo, onde no final do séc.XIX começaria a funcionar o colégio que igualmente invocava o seu nome.

 

Nos finais do séc.XVI parece dar-se um surto de reinvocação de S.Luís. Não só Luis de Figueiredo Falcão funda o convento em Pinhel sob aquele orago, como o seu parente D.Luís Figueiredo de Lemos, bispo do Funchal (1585-1608), funda uma capela junto ao seu Paço episcopal da mesma invocação. É por então também que em Pias não muito longe de Tomar se funda em 1588 uma igreja em honra do mesmo patrono. Pouco mais tarde, em 1602, é publicada, em Antuérpia, a biografia Sancti Ludovici, Caroli I, regis Siciliae filii, ex Ordine Minorum, episcopi Tolosani, vita, da autoria de Henricus Sedulius.

 

Não seria esquecido nas encomendaspara Mafra sendo representado conjuntamente com São Boaventura e São Bernardino de Siena em 1755.

O culto de São Luís estende-se igualmente para o sul do país. E não só em época de D.Dinis. No séc.XVIII tinha honras de altar na Igreja paroquial de Santa Margarida de Peroguarda no concelho de Ferreira do Alentejo, em Aljezur e em Faro. Não ficou por lá esquecido na memória do passado. Ainda em 1992 se erigiu a paróquia de São Luís em Faro ao tempo em que se construía uma nova igreja de São Luís, dedicada em 21 de Junho de 1992, que julgamos ser o mais recente orago, e onde se encontra uma imagem do patrono.

Padroeiro e protector, de cidades –   como Brignoles, Cáceres, Málaga, Serravale, Valência ou São Luís de Piraitinga – , dos reféns, dos tuberculosos e doentes de pneumonia, … é, nas nossas terras além Tejo considerado como o protector dos gados.

 

8. O correr do tempo, obriga-nos a regressar ao Convento e Igreja de Pinhel. É certo que a imagem que se encontra no nicho do seu Altar-mór não prima pela qualidade artística e que se afigura duvidosa a sua fidedignidade iconográfica. É certo que muitos, pouco mais sabem deste São Luís de que é o São Luís de Pinhel. Que importa? Há mais de 400 anos que o orago se mantém e quanto à história estamos sempre a tempo de relembrá-la…

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